Como o duo francês se tornou o senhor indiscutível das raves e por que agora, com a música eletrônica maior do que nunca, decidiu deixar o estilo para trás
O estúdio do Daft Punk em Paris fica em uma via pública feia e movimentada na zona sul da cidade, perto de uma estação de trem e de um hospital, atrás de um portão de garagem verde. Para entrar, você aperta a campainha e mostra o rosto para uma câmera de segurança; então, o portão abre para cima, revelando um belo pátio de paralelepípedos e um conjunto de edifícios beges cobertos por heras. No começo de uma tarde de primavera, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter – parisienses amigos de longa data e os músicos compulsivamente reservados por trás das máscaras de robô do Daft Punk – estão no pátio, piscando à luz do sol como se tivessem saído de uma caverna profunda. O que, praticamente, foi o que aconteceu. “É o primeiro dia bonito que temos em semanas”, diz Homem-Christo. Apontando para uma sala sem janelas onde ele e Bangalter passaram inúmeras horas debruçados sobre sintetizadores, buscando novos sons, dá de ombros de um jeito francês resignado: "Sempre estamos no escuro mesmo”.
Bangalter tira uma chave do bolso e abre a sala – foi aqui, em 2008, depois de uma turnê mundial, que o Daft Punk se recolheu para começar a fazer demos para seu quarto álbum, Random Access Memories. Na estrada, a dupla transformava anfiteatros, campos de beisebol e estádios lotados em raves eufóricas, comandando um arsenal de supercomputadores sob medida de dentro de uma pirâmide de alumínio de mais de 7 m de altura coberta por telas e centralizada dentro de uma colmeia com canhões de LED. O Daft Punk começou a fazer sucesso durante a explosão da música eletrônica nos anos 90, mas a turnê – um espetáculo alucinatório de teatralidade pop sem precedentes – tornou a dupla imensamente mais popular do que antes, transformando-a de sobreviventes de uma moda passageira em pioneiros involuntários de uma loucura por música dance que engoliu todo o mundo pop. Outro artista em posição semelhante poderia ter entrado em piloto automático – fazendo shows em lugares cada vez maiores e despejando as mesmas batidas pulsantes –, mas o Daft Punk saiu da estrada depois de 48 shows e, quando começou o novo material, foi com um desejo inquieto de se reinventar. “A música eletrônica agora está em sua zona de conforto e não se move um milímetro”, diz Bangalter. “Não é isso o que artistas devem fazer.”
Alto e magro, Bangalter, de 38 anos, usa um suéter cinza e jeans justos com um buraco enorme no joelho. Tem um rosto alongado e barbudo e cabelo cacheado que está virando quase afro (o pai dele, um artista e produtor da era disco nos anos 70 que gravou como Daniel Vangarde, é judeu, mas a família não é praticante).
Quando ele se sente relaxado, seus olhos piscam e sua linguagem corporal fica cada vez mais acolhedora – ele se aproxima, toca em você para enfatizar um ponto. Outras vezes, no entanto, enquanto outra pessoa está falando, torce o nariz em um desdém aparente, como se tivesse notado um cheiro ruim. O diretor Michel Gondry, que conhece o Daft Punk desde que a dupla o contratou para fazer o clipe de sucesso estrondoso “Around the World”, de 1997, diz que Bangalter tem uma capacidade crítica áspera que pode ser desconcertante. “Estávamos em um café em Paris uma vez e ele me contou que odiou meu primeiro filme”, Gondry relembra rindo. “Disse que faltava vida, que era forçado! Bem ríspido, não? Algumas pessoas simplesmente falam o que pensam.”
Homem-Christo, de 39 anos, tem um rosto largo, traços delicados, bochechas com barba rala e cabelo castanho comprido. Na adolescência, a cabeleira era oleosa e lisa e, frequentemente, ele era visto usando um casaco de pele e levando seus pertences em uma sacola de plástico. O guitarrista do Phoenix, Laurent Brancowitz, que conheceu a dupla em 1992, diz que Homem-Christo parecia “uma menina” e “um viciado em crack”, mas hoje a aparência dele é mais higienicamente desleixada: jaqueta de couro marrom, botas surradas de motociclista, um pingente prateado sobre um moletom preto aveludado. Não gosta muito de contato visual e é calado, enquanto Bangalter é extrovertido. “Guy-Man não fala muito”, conta Daniel Dauxerre, que trabalhava na New Rose, uma loja de discos em Paris onde a dupla procurava vinis de Augustus Pablo e Beach Boys na adolescência. “Quando fala, tem um senso de humor bem seco – pode estar zombando da sua cara sem que você perceba.”
Os membros do Daft Punk são dois dos superastros mais enigmáticos do pop. Além de esconder o rosto quando se apresentam, nos clipes e em fotos, trabalham na maior parte do tempo em segredo e mantêm controle firme sobre detalhes biográficos nos raros casos em que dão entrevistas. Então, é com olhos arregalados que um forasteiro entra no espaço de trabalho deles, onde até objetos comuns pulsam com significado aparentemente sagrado. Na sala de sintetizadores, há uma cópia surrada em vinil de Blondes Have More Fun, de Rod Stewart, em um canto e um pequeno aparelho de som portátil JVC para ouvir mixagens brutas perto dele, com uma pirâmide preta de plástico em cima. Cópias em Blu-Ray de Tron: O Legado (para o qual o Daft Punk compôs a trilha sonora) eStar Wars: A Saga Completa ocupam uma prateleira perto de um livro de design de Saul Bass, umWalker’s Rhyming Dictionary e um volume antigo da enciclopédia Life Science Library chamadoThe Mind. Grudada na parede, há uma foto dos robôs do Daft Punk junto com R2-D2 e C3PO em uma propaganda da adidas. “Este foi o momento em que senti que realmente tínhamos entrado na cultura pop”, afirma Bangalter.
Ele vai até a peça principal da sala: um imenso sintetizador modular com aproximadamente 1,2 m de altura por 1,8 m de largura. “É um sistema sob medida, novo e feito à mão para nós por um cara no Canadá”, conta. Parafusados a quatro cases de madeira do tamanho de uma máquina lava-louças, há dezenas de osciladores, geradores de ruído e envelopes; acima, filtros Borg, filtros Boogie, sequenciadores de passos e um osciloscópio antigo. Luzes que piscam, controles prateados e 933 botões diferentes brotam da fachada dentro de um emaranhado de cabos vermelhos, cinzas e amarelos. “Com um sintetizador como este, há muitos elementos afetando o som, da temperatura ambiente aos capacitores – milhares de pequenos parâmetros caóticos”, diz Bangalter, com orgulho. “É o oposto do ambiente estéril de um computador.” Ouviu falar que o produtor canadense deadmau5 ficou sabendo da configuração, contatou o fabricante e “encomendou exatamente a mesma”.
Na última década, a influência do Daft Punk ficou colossal – é difícil citar outro artista que tenha atingido tantas bandas, sons e tendências. Dá para ouvir a dupla no punk dance cheio de referências do LCD Soundsystem, que escancarou sua admiração em “Daft Punk Is Playing at My House”; no pop estridente e cheio de Auto-Tune de T-Pain e seus imitadores (o Daft Punk descobriu o efeito antes que todo mundo – exceto pela Cher – achasse legal); nos loops nebulosos de bandas de chillwave como Toro y Moi e Washed Out; no easy-listening reabilitado de Phoenix e Chromeo; na nova fusão audaciosa entre hip-hop e música eletrônica que Kanye West realizou quando transformou a voz distorcida por vocoder de Homem-Christo em um gancho de sucesso em “Stronger”. Em 2011, nos bastidores do Madison Square Garden depois de um show da turnêWatch the Throne, Jay-Z disse a Homem-Christo que a pirâmide do Daft Punk tinha sido “uma influência enorme”. Até Disco Stu usou o capacete cromado do robô de Bangalter em um episódio de Os Simpsons.
Só que quando Bangalter menciona a esterilidade do computador com uma careta, tem em mente os descendentes musicais mais diretos da dupla: os heróis da invasão dance das paradas, todos malucos pelo Daft Punk. David Guetta toca suas faixas em Ibiza e chama a estreia da dupla,Homework (1997), de “uma revolução”. Avicii descreveu sua entrada na música eletrônica como “ouvindo muito Daft Punk, bem antes de saber o que era house music”. deadmaus5 deve seus capacetes a eles. Skrillex comentou que ver a pirâmide do Daft Punk “mudou” a vida dele. Os membros do Swedish House Mafia proclamam que “o Daft Punk são nossos heróis de todas as formas possíveis”.
O estúdio do Daft Punk em Paris fica em uma via pública feia e movimentada na zona sul da cidade, perto de uma estação de trem e de um hospital, atrás de um portão de garagem verde. Para entrar, você aperta a campainha e mostra o rosto para uma câmera de segurança; então, o portão abre para cima, revelando um belo pátio de paralelepípedos e um conjunto de edifícios beges cobertos por heras. No começo de uma tarde de primavera, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter – parisienses amigos de longa data e os músicos compulsivamente reservados por trás das máscaras de robô do Daft Punk – estão no pátio, piscando à luz do sol como se tivessem saído de uma caverna profunda. O que, praticamente, foi o que aconteceu. “É o primeiro dia bonito que temos em semanas”, diz Homem-Christo. Apontando para uma sala sem janelas onde ele e Bangalter passaram inúmeras horas debruçados sobre sintetizadores, buscando novos sons, dá de ombros de um jeito francês resignado: "Sempre estamos no escuro mesmo”.
Bangalter tira uma chave do bolso e abre a sala – foi aqui, em 2008, depois de uma turnê mundial, que o Daft Punk se recolheu para começar a fazer demos para seu quarto álbum, Random Access Memories. Na estrada, a dupla transformava anfiteatros, campos de beisebol e estádios lotados em raves eufóricas, comandando um arsenal de supercomputadores sob medida de dentro de uma pirâmide de alumínio de mais de 7 m de altura coberta por telas e centralizada dentro de uma colmeia com canhões de LED. O Daft Punk começou a fazer sucesso durante a explosão da música eletrônica nos anos 90, mas a turnê – um espetáculo alucinatório de teatralidade pop sem precedentes – tornou a dupla imensamente mais popular do que antes, transformando-a de sobreviventes de uma moda passageira em pioneiros involuntários de uma loucura por música dance que engoliu todo o mundo pop. Outro artista em posição semelhante poderia ter entrado em piloto automático – fazendo shows em lugares cada vez maiores e despejando as mesmas batidas pulsantes –, mas o Daft Punk saiu da estrada depois de 48 shows e, quando começou o novo material, foi com um desejo inquieto de se reinventar. “A música eletrônica agora está em sua zona de conforto e não se move um milímetro”, diz Bangalter. “Não é isso o que artistas devem fazer.”
Alto e magro, Bangalter, de 38 anos, usa um suéter cinza e jeans justos com um buraco enorme no joelho. Tem um rosto alongado e barbudo e cabelo cacheado que está virando quase afro (o pai dele, um artista e produtor da era disco nos anos 70 que gravou como Daniel Vangarde, é judeu, mas a família não é praticante).
Quando ele se sente relaxado, seus olhos piscam e sua linguagem corporal fica cada vez mais acolhedora – ele se aproxima, toca em você para enfatizar um ponto. Outras vezes, no entanto, enquanto outra pessoa está falando, torce o nariz em um desdém aparente, como se tivesse notado um cheiro ruim. O diretor Michel Gondry, que conhece o Daft Punk desde que a dupla o contratou para fazer o clipe de sucesso estrondoso “Around the World”, de 1997, diz que Bangalter tem uma capacidade crítica áspera que pode ser desconcertante. “Estávamos em um café em Paris uma vez e ele me contou que odiou meu primeiro filme”, Gondry relembra rindo. “Disse que faltava vida, que era forçado! Bem ríspido, não? Algumas pessoas simplesmente falam o que pensam.”
Homem-Christo, de 39 anos, tem um rosto largo, traços delicados, bochechas com barba rala e cabelo castanho comprido. Na adolescência, a cabeleira era oleosa e lisa e, frequentemente, ele era visto usando um casaco de pele e levando seus pertences em uma sacola de plástico. O guitarrista do Phoenix, Laurent Brancowitz, que conheceu a dupla em 1992, diz que Homem-Christo parecia “uma menina” e “um viciado em crack”, mas hoje a aparência dele é mais higienicamente desleixada: jaqueta de couro marrom, botas surradas de motociclista, um pingente prateado sobre um moletom preto aveludado. Não gosta muito de contato visual e é calado, enquanto Bangalter é extrovertido. “Guy-Man não fala muito”, conta Daniel Dauxerre, que trabalhava na New Rose, uma loja de discos em Paris onde a dupla procurava vinis de Augustus Pablo e Beach Boys na adolescência. “Quando fala, tem um senso de humor bem seco – pode estar zombando da sua cara sem que você perceba.”
Os membros do Daft Punk são dois dos superastros mais enigmáticos do pop. Além de esconder o rosto quando se apresentam, nos clipes e em fotos, trabalham na maior parte do tempo em segredo e mantêm controle firme sobre detalhes biográficos nos raros casos em que dão entrevistas. Então, é com olhos arregalados que um forasteiro entra no espaço de trabalho deles, onde até objetos comuns pulsam com significado aparentemente sagrado. Na sala de sintetizadores, há uma cópia surrada em vinil de Blondes Have More Fun, de Rod Stewart, em um canto e um pequeno aparelho de som portátil JVC para ouvir mixagens brutas perto dele, com uma pirâmide preta de plástico em cima. Cópias em Blu-Ray de Tron: O Legado (para o qual o Daft Punk compôs a trilha sonora) eStar Wars: A Saga Completa ocupam uma prateleira perto de um livro de design de Saul Bass, umWalker’s Rhyming Dictionary e um volume antigo da enciclopédia Life Science Library chamadoThe Mind. Grudada na parede, há uma foto dos robôs do Daft Punk junto com R2-D2 e C3PO em uma propaganda da adidas. “Este foi o momento em que senti que realmente tínhamos entrado na cultura pop”, afirma Bangalter.
Ele vai até a peça principal da sala: um imenso sintetizador modular com aproximadamente 1,2 m de altura por 1,8 m de largura. “É um sistema sob medida, novo e feito à mão para nós por um cara no Canadá”, conta. Parafusados a quatro cases de madeira do tamanho de uma máquina lava-louças, há dezenas de osciladores, geradores de ruído e envelopes; acima, filtros Borg, filtros Boogie, sequenciadores de passos e um osciloscópio antigo. Luzes que piscam, controles prateados e 933 botões diferentes brotam da fachada dentro de um emaranhado de cabos vermelhos, cinzas e amarelos. “Com um sintetizador como este, há muitos elementos afetando o som, da temperatura ambiente aos capacitores – milhares de pequenos parâmetros caóticos”, diz Bangalter, com orgulho. “É o oposto do ambiente estéril de um computador.” Ouviu falar que o produtor canadense deadmau5 ficou sabendo da configuração, contatou o fabricante e “encomendou exatamente a mesma”.
Na última década, a influência do Daft Punk ficou colossal – é difícil citar outro artista que tenha atingido tantas bandas, sons e tendências. Dá para ouvir a dupla no punk dance cheio de referências do LCD Soundsystem, que escancarou sua admiração em “Daft Punk Is Playing at My House”; no pop estridente e cheio de Auto-Tune de T-Pain e seus imitadores (o Daft Punk descobriu o efeito antes que todo mundo – exceto pela Cher – achasse legal); nos loops nebulosos de bandas de chillwave como Toro y Moi e Washed Out; no easy-listening reabilitado de Phoenix e Chromeo; na nova fusão audaciosa entre hip-hop e música eletrônica que Kanye West realizou quando transformou a voz distorcida por vocoder de Homem-Christo em um gancho de sucesso em “Stronger”. Em 2011, nos bastidores do Madison Square Garden depois de um show da turnêWatch the Throne, Jay-Z disse a Homem-Christo que a pirâmide do Daft Punk tinha sido “uma influência enorme”. Até Disco Stu usou o capacete cromado do robô de Bangalter em um episódio de Os Simpsons.
Só que quando Bangalter menciona a esterilidade do computador com uma careta, tem em mente os descendentes musicais mais diretos da dupla: os heróis da invasão dance das paradas, todos malucos pelo Daft Punk. David Guetta toca suas faixas em Ibiza e chama a estreia da dupla,Homework (1997), de “uma revolução”. Avicii descreveu sua entrada na música eletrônica como “ouvindo muito Daft Punk, bem antes de saber o que era house music”. deadmaus5 deve seus capacetes a eles. Skrillex comentou que ver a pirâmide do Daft Punk “mudou” a vida dele. Os membros do Swedish House Mafia proclamam que “o Daft Punk são nossos heróis de todas as formas possíveis”.
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